Reflexão sobre o Salmo 77: Quando a Alma Recusa ser Consolada
Há momentos de angústia tão profundos que a alma parece se fechar para qualquer consolo. O Salmo 77 é a oração de alguém que está nessa "noite escura", clamando a Deus, mas sentindo apenas silêncio e dúvida. A mensagem do Salmo 77 é uma jornada poderosa que nos ensina a sair desse abismo, não negando nossos sentimentos, mas mudando nosso foco: da nossa dor para as obras de Deus.
A Angústia da Noite e as Perguntas da Dúvida
O salmista Asafe começa com um clamor desesperado. "No dia da minha angústia, busquei ao Senhor; a minha mão se estendeu de noite e não cessava; a minha alma recusava ser consolada". Ele está em um estado de depressão espiritual tão profunda que nem mesmo a lembrança de Deus traz paz; pelo contrário, ela o perturba ainda mais.
Sua mente é invadida por uma torrente de perguntas que atacam o próprio caráter de Deus:
- "Rejeitará o Senhor para sempre...?" (Sua fidelidade)
- "Cessou para sempre a sua benignidade...?" (Seu amor leal)
- "Faltou a sua promessa...?" (Sua palavra)
- "Esqueceu-se Deus de ter misericórdia...?" (Sua compaixão)
Essas são as perguntas que todos nós fazemos em nossos momentos mais sombrios. O salmo valida essa luta, mostrando que a fé honesta não tem medo de questionar.
O Remédio da Memória: Lembrar das Obras do Senhor
No meio de sua espiral de dúvida, o salmista tem um momento de clareza. Ele percebe que sua perspectiva está doente. "Então, disse eu: isto é enfermidade minha; e logo me lembrei dos anos da destra do Altíssimo". Ele reconhece que seu foco em seus próprios sentimentos é uma "enfermidade", e ele escolhe o remédio: a memória.
Este é o ponto de virada crucial do salmo. Ele toma uma decisão consciente: "Recordarei os feitos do Senhor; sim, me lembrarei das tuas maravilhas da antiguidade. Meditarei também em todas as tuas obras e falarei dos teus feitos". O significado do Salmo 77 é que a disciplina espiritual de lembrar é o antídoto para o veneno da dúvida. Ele para de olhar para dentro (sua dor) e começa a olhar para trás e para cima (as obras de Deus).
"O Teu Caminho, ó Deus, Está no Santuário"
Ao começar a meditar nas obras de Deus, sua perspectiva muda completamente. "O teu caminho, ó Deus, está no santuário. Que deus é tão grande como o nosso Deus?". O caminho de Deus é santo, separado, diferente dos caminhos humanos. Ele é o "Deus que faz maravilhas".
A memória do salmista o leva de volta ao maior ato de redenção de Israel: o Êxodo. Ele se lembra de como Deus redimiu Seu povo "com o teu braço". Ele descreve a passagem pelo Mar Vermelho com imagens poéticas e poderosas: "Viram-te as águas, ó Deus... os abismos tremeram". A natureza inteira se convulsionou diante da presença de seu Criador.
O salmo termina com uma imagem de confiança serena. "Pelo mar foi o teu caminho, e as tuas veredas, pelas grandes águas, e as tuas pegadas não se conheceram. Guiaste o teu povo, como a um rebanho, pela mão de Moisés e de Arão". Mesmo quando o caminho de Deus é misterioso e Suas "pegadas" não são visíveis, Ele continua guiando Seu povo como um pastor fiel.
Se sua alma hoje "recusa ser consolada", se sua mente está cheia de dúvidas, siga o exemplo do Salmo 77. Reconheça que focar apenas na dor é uma enfermidade espiritual. Escolha o remédio da memória. Lembre-se do que Deus já fez em sua vida e na história. Medite em Suas obras. Você descobrirá que, mesmo quando você não pode ver as pegadas Dele, Ele ainda está guiando você como um bom pastor.