Reflexão sobre o Salmo 44: 'Desperta! Por que Dormes, Senhor?'
Como conciliar a fé nas promessas de Deus com uma realidade de sofrimento e derrota? O Salmo 44 é um poderoso e desconfortável lamento nacional que enfrenta essa questão de frente. É a voz de uma comunidade que se lembra da fidelidade de Deus no passado, mas que agora se sente inexplicavelmente abandonada por Ele. A mensagem do Salmo 44 nos dá permissão para lutar com Deus e fazer as perguntas difíceis quando nossa fé e nossa experiência entram em conflito.
Lembrando as Obras do Passado
O salmo começa com uma forte declaração de fé, baseada na história. "Nós ouvimos com os nossos ouvidos, ó Deus; nossos pais nos têm contado a obra que fizeste em seus dias, nos tempos da antiguidade". Eles se lembram de como Deus, com Sua própria mão, estabeleceu Israel na Terra Prometida. A vitória nunca foi deles: "não foi pela sua espada que possuíram a terra, nem foi o seu braço que os salvou, mas a tua destra, e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste deles".
Essa lembrança do poder salvador de Deus no passado é o que torna a situação presente tão dolorosa e confusa.
A Confusão do Presente: Rejeitados e Humilhados
O tom do salmo muda drasticamente. "Mas agora tu nos rejeitaste e nos confundiste e não sais com os nossos exércitos". O mesmo Deus que lhes dava a vitória agora parece ser a causa de sua humilhação. Eles são derrotados, saqueados, espalhados entre as nações e se tornaram motivo de zombaria. "Fazes de nós um provérbio entre as nações, um menear de cabeça entre os povos".
O ponto mais agudo do significado do Salmo 44 está na alegação do povo de que eles não mereciam isso. "Tudo isto nos sobreveio; contudo, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança. O nosso coração não voltou para trás, nem os nossos passos se desviaram das tuas veredas". Diferente dos salmos penitenciais, aqui o povo não está sofrendo por causa de seu pecado, mas apesar de sua fidelidade. Isso torna o silêncio de Deus ainda mais incompreensível.
Um Apelo à Ação: "Levanta-te em Nosso Auxílio!"
Sentindo-se como "ovelhas para o matadouro", mortos "todo o dia" (uma frase que o apóstolo Paulo usa em Romanos 8:36 para descrever o sofrimento dos crentes), a comunidade explode em um clamor desesperado e urgente. "Desperta! Por que dormes, Senhor? Acorda! Não nos rejeites para sempre. Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e da nossa opressão?".
Esta linguagem não é uma acusação teológica de que Deus literalmente dorme. É uma metáfora poderosa, nascida da angústia, para expressar o sentimento de abandono total. É um apelo para que o Deus que parece inativo se manifeste e aja.
A oração final não é baseada nos méritos do povo, mas no caráter de Deus: "Levanta-te em nosso auxílio e resgata-nos por amor das tuas misericórdias". No fim, mesmo em sua confusão e dor, a única esperança deles é a hesed, o amor leal e a misericórdia de Deus.
O Salmo 44 é um conforto para aqueles que, em sua jornada de fé, enfrentam sofrimentos que não conseguem entender. Ele nos ensina que é legítimo levar nossas perguntas e nossa confusão a Deus. É permitido clamar com urgência para que Ele aja. E, no final, mesmo quando não temos respostas, podemos nos apegar a uma única coisa: a certeza de Sua misericórdia, que é a nossa única esperança de redenção.